Livro da vez: A coragem para liderar

A coragem para liderar é mais um dos livros da famosa escritora e pesquisadora Brené Brown. Ela é mais conhecida pelo livro A coragem de ser imperfeito (que eu ainda não li). Aliás, acredito que ela é ainda mais conhecida por ser a única pesquisadora a ter conteúdo disponibilizado na Netflix.

O livro traz muito da experiência da autora nos anos de consultoria e treinamentos que atuou em diversas empresas. Eu também considero o livro um “compilado” de ideias que ela expos nos livros anteriores. Ela cita muitas passagens de outros livros como A coragem de ser imperfeito e Mais forte do que nunca. Então, acredito que seja um bom livro para quem quer entender a essência do trabalho da autora sem ter que ler todos os livros. Porém, para quem já leu todos os outros, tenho a impressão que pode soar repetitivo. Para mim, a principal mensagem do livro é que devemos cuidar das pessoas que lideramos e estar conectados com elas. Bons resultados dependem de confiança que as pessoas tem umas nas outras.

Isso parece óbvio, certo? Óbvio que temos que cuidar das pessoas e promover um ambiente de confiança. Mas duvido que todos nós dedicamos tempo suficiente nisso. A confiança é algo que se leva tempo para construir. A autora usa a metáfora do pote de bolinhas de gude para descrever o processo de construção da confiança. É uma metáfora interessante e que é muito parecida com a qual eu costumo usar: a metáfora da conta corrente. Para ganhar confiança de alguém, é preciso realizar pequenos depósitos ao longo do tempo. Pequenos gestos que mostrem que você se preocupa genuinamente com esta pessoa. Porém, você deve continuamente cuidar desta relação pois um descuido pode gerar um saque alto desta conta corrente deixando seu limite negativo. Ou seja, quebrando a confiança. E sabemos o quanto é difícil sair dos juros do cheque especial quando se cai nele.

A partir desta metáfora, a autora vai trazendo os conceitos e ideias pelas quais ela se destacou. A importância de mostrar a nossa vulnerabilidade e como isso se relaciona com o processo de construção da confiança e alcance de resultados incríveis dentro das corporações. Isso porque a consciência da nossa própria vulnerabilidade traz mais “conforto” para o erro, para cair e levantar, para assumir riscos e fracassos. Quanto mais você “pratica” estar num estado de vulnerabilidade, maior será sua habilidade de se reerguer e maior será sua coragem para se expor à situações deste tipo.

Na verdade, eu ouvia as pessoas falarem da Brené e esta super valorização da vulnerabilidade e isso me deixava muito incomodada. Me soava como marketing ou modinha. Inclusive isso que me manteve longe dos livros da Brené Brown por um bom tempo. Eu acreditava que poderia até chegar a ser uma irresponsabilidade do líder. A demonstração da vulnerabilidade em excesso pode causar pânico nas pessoas ao invés de contribuir com um ambiente seguro e transparente. Foi bom eu ter lido este livro pois ela mesma aborda esta supervalorização. Ela admite que isso ocorre e chama à atenção para limites e responsabilidade que devemos ter através de histórias/situações onde líderes demonstram esta vulnerabilidade responsável.

Neste ponto é que entra o mais difícil na minha opinião. Para praticar a vulnerabilidade responsável, é preciso saber lidar com os próprios sentimentos e medos. E ao contrário do que muitos de nós aprendemos, não é escondendo e reprimindo. É praticando uma curiosidade por eles. É reconhecer quando estamos sentindo-os e se perguntar o que estamos sentindo(ampliando nosso repertório de sentimentos) e porquê estamos sentindo. Esta curiosidade nos ajuda a lidar melhor com estes sentimentos ao invés de negá-los e acumulá-los em nosso corpo e mente. Nos ajuda a ver nossa participação e a história que estamos contando a nós mesmos sobre a situação que foi o gatilho. Por fim, nos ajuda a praticar a empatia sobre nós mesmos e sobre os outros.

Também gostei de como autora aborda o tempo dedicado por líderes para lidar com medos e sentimentos das equipes. Ela afirma que se líderes não investem tempo suficiente nisso acabam por gastar mais tempo tentando gerenciar comportamentos ineficientes e improdutivos. Acredito que todos nós já presenciamos uma ou duas ocasiões em que vimos isso acontecer. Normalmente na comunicação de uma grande mudança na equipe ou na empresa. Líderes não dedicam tempo suficiente em ouvir genuinamente as pessoas, seus sentimentos, seus medos e depois se perguntam porque as coisas não foram como esperavam. É por isso que a liderança não pode ser part-time ou feita no tempo que sobrar. Demanda bastante tempo.

Um outro destaque que faço é de como a liderança é colocada no livro. Liderar de verdade é algo bem longe do que eu chamo de “liderança de palco” que a gente vê aos montes por aí e nos faz acreditar que é algo inspirador, grandioso e que te coloca no centro do sucesso daquela equipe. Eu concordo muito com o que a Brené traz. Na verdade liderar exige coragem pois é uma sucessão de conversas difíceis, gerenciamento de medos e sentimentos, lidar com ambiguidades. É trabalhar constantemente para que as outras pessoas/equipes possam se destacar. É abrir mão de ganhar estrelinhas para dar estrelinhas usando a mesma frase que a autora usa no livro.

No geral, o livro é bom e eu recomendo. Acredito que poderia ser mais conciso uma vez que a autora se repete bastante nos mesmos conceitos e tópicos que ela quer trazer para reflexão. Porém, acho que só de trazer estes pontos para nossa reflexão já pode ser um fator de mudança para nossa liderança e relacionamento com as pessoas que nos cercam.

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