O Dia do Curinga

Esta obra segue o mesmo caminho de outra famosa obra deste mesmo autor, O Mundo de Sofia, apresentando um conto de fadas moderno que  disfarça um conteúdo introdutório aos conceitos da filosofia. Aliás, as histórias das duas obras se entrelaçam  com uma pergunta da protagonista Sofia, de O Mundo de Sofia, à sua mãe:

“Você já pensou que num baralho existem muitas cartas de copas e de ouros, outras tantas de espadas e de paus, mas que existe apenas um curinga?”

A obra conta a história de Hans-Thomas e seu pai, um filósofo amador, que cruzam a Europa de carro procurando por Anita, a mãe de Hans-Thomas, que os abandonou há oito anos em uma viagem para tentar se reencontrar. Durante a viagem, Hans descobre que sua história está entrelaçada com várias outras histórias e que seu destino foi previsto pelas cartas de baralho de um marujo vítima de um naufrágio, que viveu em uma ilha deserta.

Os fatos desenrolam-se aos poucos, timidamente. Tudo é exposto de forma de enigmática e o leitor é convidado a desvendar estas charadas junto com Hans. Enquanto acompanhamos Hans em sua leitura do mini-livro que encontrou dentro do pãozinho doce, somos brindados com questões, pensamentos e conclusões brilhantes do pai de Hans. Com um tom bem Alice no país das maravilhas, mas com uma mensagem social subliminar, Gaarder  nos apresenta uma visão da vida e do ser humano que se perde no dia-a-dia acelerado, atropelado e insensível que enfrentamos todos os dias. Nos transformamos em uma massa de bonecos de lego que não são capazes de questionar, investigar ou pensar diferente. Apenas existimos. Tudo parece normal, trivial. Ignoramos o verdadeiro mistério de existir e apenas o Curinga abrirá nossos olhos para o verdadeiro sentido da vida.

A vida é fascinante, só o fato de existir já é dotado de tanto mistério que deveríamos nos fascinar a cada dia, e nos entusiasmar com cada movimento, cada ação, cada acaso, cada ser.  A história é fantástica e envolvente, prende o leitor do começo ao fim de suas 378 páginas, que li em uma semana. Faz você querer decorar cada frase, cada pensamento, cada conclusão e se maravilhar com as declamações do pai de Hans.

Minha opinião é que O Dia do Curinga é bem superior ao O Mundo de Sofia. Seu conteúdo é bem mais leve, de  fácil leitura e compreensão. Eu me apaixonei pela história, pelo conteúdo, pela filosofia do pai de Hans, pelo calendário de cartas e com certeza, irei reler este livro. Quero terminar com um trecho do livro onde nosso filósofo amador expôe todo seu talento:

Estou falando de uma única e longa cadeia de acasos. E essa cadeia pode ser acompanhada até chegarmos à primeira célula viva, que se dividiu e com isso deu o pontapé inicial para tudo o que cresce hoje em dia no planeta. A probabilidade de que minha cadeia não se interrompeu  em algum ponto do passado ao longo de 3 ou 4 bilhões de anos é tão pequena que quase não podemos imaginá-la. Mas eu consegui chegar até aqui. Isso mesmo, diabos, aqui estou eu! E sei que sorte do cão tive para ter o prazer de desfrutar deste planeta na sua companhia. sei da sorte que teve cada pequeno ser vivo deste planeta. Os que tiveram azar não existem. Nunca nasceram.

A vida é uma grande loteria , da qual só se vêem os ganhadores.”

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